Toda ação humana, quer se torne positiva ou negativa, precisa depender de motivação.” (Dalai Lama) 

O câncer é muito mais perverso do que pode parecer. Mais do que ameaçar as pessoas com a perda da vida, a doença retira, também, a dignidade do ser humano, alterando a aparência de maneira deprimente.

A perda de cabelos e pelos costuma ter impacto fortíssimo nos doentes. Para as mulheres chega a ser insuportável e causa até depressão. Praticamente não há como disfarçar, porque um dos traços da feminilidade é a cabeleira farta e bem penteada.

Ao se expor em público, seja na rua ou em ambientes fechados, a mulher que está em tratamento será identificada facilmente. Mesmo que tente disfarçar a sua condição será notada na maioria das vezes.

Nem a prótese bem feita, nem a peruca comum, os cílios e sobrancelhas postiços, ou a maquiagem para disfarçar a palidez são suficientes para suavizar a perda dos cabelos.

O impacto de ver os cabelos caírem é assustador. É uma parte de nós que vai embora e essa parte destrói a nossa aparência. Deixa-nos deprimidos pela perda de algo que é fundamental: a autoestima.

Cuidar dos cabelos não é só vaidade. Vai além disso, pois funciona quase como uma terapia em salões de beleza, onde conversas animadas e massagens capilares servem de relaxamento para compensar o dia a dia corrido. Junto com os cabelos, perde-se também o lazer e a descontração.

A calvície obrigatória materializa toda a tortura do tratamento e da doença, porque os fios caem normalmente no décimo sétimo dia depois da primeira quimioterapia. Nesse período, o doente ainda está iniciando o tratamento. Por isso, se apavora mais ao ver quedas enormes dos cabelos. É uma pancada após a outra.

É um momento de fragilidade psicológica e do corpo, que exige muito das pessoas para recuperar a serenidade.

Ser identificado em situações assim equivale a ter a marca dos ferros que são aplicados aos animais. É quase assim o rebaixamento da condição humana.

Nossa sociedade tem pavor do câncer. Para muita gente, a doença é sinônimo de grave sofrimento ou até de possibilidade de perda da vida.

É comum, portanto, ver estampado no rosto das pessoas sadias o medo e muitas vezes o sentimento de piedade, que não pode ser escondido.

O doente, ao ver as fisionomias de espanto, piedade ou de medo tem reações tristes. A tristeza é quase inevitável, pois ao ser alvo de todos os olhares curiosos sem poder negar ou ocultar a própria condição, a pessoa sofre. E muito.

O sofrimento pode enfraquecer ainda mais o sistema imunológico e até prejudicar o tratamento. É preciso reagir rápido e encontrar o ponto de equilíbrio emocional.

Não bastasse o pesado castigo, ainda há o fardo de carregar o carimbo da desgraça na própria face, que pode ficar desfigurada temporariamente pelos medicamentos e pela falta de pelos.

A solução adotada por muitos é a reclusão, ou seja, não se apresentar a ninguém, para não ter que passar por constrangimentos. Mas com certeza não é a melhor opção.

A situação é realmente delicada e exige muitas vezes a superação desse problema antes mesmo do enfrentamento da doença.

Racionalmente, não há muito a ser feito quando se está diante do inevitável, pois os pelos e cabelos só nascerão após o fim do tratamento.

A boa notícia é essa: a cabeleira renascerá exuberante, fazendo brotar no íntimo de cada pessoa um tipo de felicidade nunca sentido.

A esperança de voltar a ser como antes é um dos maiores estímulos para não se abater durante a queda.

Pessoas curadas do câncer são mais felizes que a maioria, porque exibem a condição de quem passou por tormentas e obteve a vitória.

O troféu pode ser considerado o cabelo que foi retirado à força, mas que, teimoso, preencheu toda a cabeça como era antes.

O primeiro passo seria difícil, mas extremamente necessário. Nessa situação, o paciente deverá ter em mente o seguinte: “Ficarei com a aparência alterada, vou fazer o possível para me sentir bem. Usarei acessórios para disfarçar a minha aparência. Mas aceito essa condição, pois sei que é passageira”.

Ao aceitar a condição provisória da aparência alterada, o cérebro do doente se acalmará e as emoções ficarão mais equilibradas. Haverá menos estresse, consequentemente o sistema imunológico se fortalecerá.

Um dos piores tormentos que o ser humano pode passar é o de se colocar em uma prisão pessoal, por livre e espontânea vontade. A libertação do drama da perda de pelos é imprescindível para contribuir com o tratamento.

A presença de um amigo ou de um ente querido da família é fundamental para que as pessoas consigam superar essa fase.

Na sociedade vemos muitos exemplos de desprendimento entre parentes e amigos. Um pai raspou a cabeça para ficar parecido com o filho de seis anos que estava lutando contra um câncer.

A amiga de todas as horas apareceu na casa de sua melhor amiga com lenço na cabeça e mostrou que, em solidariedade, retirou todos os fios de cabelo que cultivava com tanto carinho.

As demonstrações de atenção e afeto são importantíssimas para os portadores de câncer. Não é sem motivo que muitas recuperações espetaculares começam a partir desses gestos grandiosos.

O que não deve acontecer é prolongar o sofrimento por causa da aparência. Afinal, a nossa vida é muito mais valiosa do que uma aparência débil e sem pelos, que será assim por período de alguns meses.

O doente deverá redobrar as esperanças de cura e seguir adiante com o propósito de cuidar da própria saúde.

A aparência física é muito importante, mas é preciso que o doente tenha a consciência de que naquele momento a vida dele é a prioridade.

Depois de 17 dias da primeira quimioterapia acordei com travesseiro cheio de cabelos. À noite, ao tomar banho, eles caíram bastante. Como já tenho calvície acentuada, no décimo oitavo dia raspei a cabeça às oito horas da manhã.

A sensação foi a de quem foi sacudido pela doença. Mais ou menos assim: “A doença já está se manifestando, os primeiros sinais de que a aparência não será mesma já estão registrados em meu corpo. Perco os cabelos, mas não a dignidade de poder derrotar a doença.

Saí do salão aliviado pela missão cumprida. Não me importei se despertaria a atenção das pessoas.

Eu era um sujeito resolvido e disposto a iniciar a maior guerra da minha vida, mesmo sem conhecer direito o inimigo.

Interiormente, eu tinha a convicção de que estava no caminho certo, porque carregava comigo três armas poderosíssimas: a fé, a esperança e o otimismo inabaláveis. Estava, dessa maneira, preparado para a guerra.

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