A conexão do sono com o inconsciente

Danilo Vilela Prado

O neurocientista Leonard Mlodinow, no livro “Subliminar – Como o inconsciente influencia nossas vidas”, Editora Zahar, faz uma interessante abordagem sobre o consciente e o inconsciente. De acordo com ele, somos comandados pelo inconsciente, embora pensemos que o consciente controla quase todos os nossos atos. Ele descreve o seguinte:

No consciente é manifestado tudo aquilo que vemos ou sentimos. São as sensações reais. É como se estivéssemos num restaurante e pedíssemos um prato saboroso. Ao chegar a comida à mesa desfrutamos o cheiro agradável que aguça o paladar; apreciamos a disposição do alimento nas vasilhas e sentimos o sabor ao comer. Essa parte é o que o consciente identifica.

Para saber, porém, como o alimento é preparado, precisamos nos levantar e caminhar até a cozinha. Ali é que saberemos como a comida foi feita, com o preparo dos ingredientes, tempo de cozimento, adição de tempero e toda aquela “magia” que envolve o ato de cozinhar com competência, de modo a estimular o paladar.

O compartimento da cozinha é invisível às pessoas que estão à mesa aguardando a comida. Equivale, portanto, ao inconsciente, porque nele é que são planejadas as ações e se realizam os atos concretos, posteriormente transferidos para uma “vitrine” bem visível, denominado consciente.

Neste texto, a minha proposta é estabelecer o caminho, o trajeto que podemos fazer do consciente até o inconsciente, pois no exemplo acima as pessoas devem se levantar das cadeiras e percorrer um espaço físico, em linha reta ou desviando de objetos, para entrar na cozinha. Sem o caminho, teremos sempre apenas a percepção do consciente. Ficaremos mais incompletos por desconhecermos como tudo funciona.

Na minha experiência ao combater um câncer linfático, aprendi a percorrer com maior frequência os caminhos do consciente até o inconsciente. As técnicas são relativamente fáceis, mas exigem disciplina, determinação e paciência para aguardar os resultados, que no meu caso sempre aconteceram. Assim, melhorei muito a minha qualidade de vida e fiz várias conexões de neurônios.

Esclareço, todavia, que o relato a seguir não tem caráter científico e é fruto somente de minha experiência individual, uma das mais significativas que já vivi.

A relação sono e inconsciente

Desde criança percebi que meus pensamentos conscientes, quando eram lembrados antes de dormir, principalmente aqueles que eram objetivos de vida, se tornavam realidade com maior frequência.

Pouco antes de dormir eu pensava fixamente nos problemas que tinha, e não sabia como resolver. Eu não tratava dos problemas como obsessão, pois isso poderia atrapalhar o sono. Meus pensamentos eram praticamente acríticos, ou seja, não havia juízo de valor e poucas emoções inundavam minha mente consciente.

Nunca tive resultados satisfatórios nas várias vezes em que a emoção ou os sentimentos negativos conduziam meus pensamentos antes de dormir. Daí a importância de nos afastarmos das aflições, medos e outros pensamentos ruins.

Se o pensamento era neutro, ou “técnico”, o sono trazia as respostas e as soluções desejadas no dia seguinte ou nos dias subsequentes. Com o passar dos anos, fui consolidando esse estilo de vida, até que me deparei com uma doença grave que exigia esforços maiores para atingir o inconsciente.

Nos primeiros momentos de combate ao câncer, as respostas pareciam não existir. Havia uma doença que a minha mente consciente insistia em negar; ou seja, para o meu cérebro não havia nada de errado, porque não havia febre, dor, ou qualquer outro aviso de que um monstro me devorava por dentro. O comando cerebral consciente era muito claro: tudo estava normal no meu organismo.

No estado em que me encontrava, o cérebro estava sendo enganado e a minha mente consciente insistia em recusar a fazer o percurso até o inconsciente. Foi quando ocorreu a ideia de dar ordens para o inconsciente.

O neurocientista Daniel Eagleman, no livro “Incógnito – As vidas secretas do cérebro”, Editora Rocco Ltda., 2011, diz, na página 17 o seguinte: “A mente não é o centro da ação no cérebro; ela fica numa margem distante, ouvindo apenas sussurros de atividade.”

O que o neurocientista quis dizer é que a mente consciente é influenciada pela mente inconsciente. Esta, muitas vezes define o que iremos fazer, sem que nem mesmo percebamos.

Quando escolhemos alguém para casar, pensamos que a decisão é consciente. Porém, há uma infinidade de aspectos inconscientes que determinam a nossa escolha. Existem odores que o corpo humano exala e nosso olfato não sente, mas que são percebidos inconscientemente. Da mesma maneira, a simetria da face pode atrair ou repelir o possível parceiro.

A postura corporal de cada um de nós é notada inconscientemente e faz com que nos aproximemos ou nos afastemos das pessoas. Por isso, é tão comum comentarmos que “o meu santo não foi com o santo dele ou dela”. Enfim, a nossa escolha de marido ou mulher está muito mais relacionada com os aspectos inconscientes do que a nossa consciência pode identificar.

Em outro ponto do livro, Daniel Eagleman diz que a mente consciente tem que reeducar a mente inconsciente.

Foi mais ou menos o que aconteceu comigo. Consegui dar os comandos conscientes para a mente inconsciente, que reorganizou o cérebro para enfrentar o que viria mais a frente.

Quase todos os comandos cerebrais conscientes foram dados por mim antes de dormir, pois o sono tem várias funções importantíssimas para o ser humano, entre as quais dou maior relevância para a finalidade de conectar o sono ao inconsciente: a) fazer conexões de neurônios; b) acalmar a mente, aliviando o excesso de emoções que podem nos afetar negativamente; c) reorganizar a memória; d) fortalecer o sistema imunológico, entre outras (confira abaixo).

O mais importante na minha experiência foi descobrir que o último pensamento consciente passa a ser o primeiro pensamento que o inconsciente vai identificar durante o sono.

Quando estamos com algum objetivo definido e certo no consciente, o sono proporciona o ambiente ideal para que o cérebro transfira nosso desejo para o inconsciente. Isso é feito por meio do papel reparador do sono, porque é durante esse modo particular de funcionamento do cérebro que a adenosina acumulada ao redor dos neurônios é removida.

A adenosina é substância produzida pelo próprio trabalho dos neurônios. Quanto mais trabalham, mais adenosina é liberada e vai se acumulando no cérebro. Creio que é nesse momento que ocorrem as conexões de neurônios, que estimulam o inconsciente a trabalhar a nosso favor, embora essa minha percepção não tenha respaldos científicos, mas funciona muito bem comigo.

Durante o sono, o excesso emocional impulsivo que todos nós temos é eliminado. Dessa maneira, no dia seguinte as ideias são mais claras e fáceis de executar.

Com todo o processo mental equilibrado e harmonia entre o consciente e inconsciente, meu sistema imunológico foi se tornando mais forte durante o tratamento do câncer, progressivamente, diminuindo consideravelmente os efeitos devastadores da quimioterapia e da radioterapia.

No meu caso, o desejo era a cura, mas até alcançar o objetivo, era necessário ter energia, otimismo, fé e aliviar os efeitos do tratamento. Por isso, comecei a dar ordens conscientes, por exemplo, para acordar com maior disposição física no dia seguinte. Uma ordem simples, que o cérebro podia entender perfeitamente.

As ordens, no entanto, têm que ser decisivas e afirmativas. Não pode haver dúvida. Se pensar que amanhã “acho” que vou acordar melhor, o cérebro irá sabotar a ordem e trabalhar de forma contrária, pois o inconsciente não aceita a dúvida.

O modo correto é: amanhã “com certeza” terei maior bem-estar e vigor físico. As chances que isso ocorra são enormes, porque a mente inconsciente entenderá a ordem de se reorganizar durante o sono o desejo da pessoa acontecerá. Foi assim que alcancei as minhas metas dia após dia.

Para melhorar o desempenho

O processo mental que ocorre durante o sono pode ser melhorado a partir de três providências simples:

1. Pensar firmemente no objetivo antes de dormir. Em seguida relaxar o corpo e tentar dormir.

O relaxamento corporal pode ser feito de várias maneiras. A mais eficiente é por meio da respiração. O importante é eliminar as tensões musculares, entrar num estado de meditação. Ou, simplesmente, praticar a respiração diafragmática, também chamada de respiração profunda, pois ela expande o diafragma e permite que o abdômen se encha do ar rico em oxigênio. Dessa maneira, a oxigenação aumenta por todo o corpo e cria o ambiente propício para que o sono aconteça e faça a conexão com o inconsciente.

2. Ao acordar pela manhã é importante reforçar a ordem dia anterior, isto é, o último pensamento consciente da noite será o primeiro pensamento do dia. Tal providência é necessária porque nem sempre a conexão com o inconsciente acontece na primeira noite. Pode ser imediata, mas pode durar dias. Daí a importância da persistência.

3. Se houver a oportunidade de pensar no objetivo desejado durante o dia, esta é a oportunidade de reforçar o comando cerebral. Um bom momento é o relaxamento depois do almoço, repetindo o mesmo comando da noite anterior, em relaxamento de mais ou menos dez minutos.

No próximo artigo deste abordarei as técnicas de respiração diafragmática conjugadas com a meditação. Aí abaixo vão, resumidamente, os benefícios do sono:

Entre os vários comportamentos autodestrutivos do ser humano um dos mais nocivos é ficar sem dormir, ou dormir menos que o necessário, porque o período do repouso noturno, com o sono reparador, é absolutamente necessário a quase todos os animais.

Se todas as pessoas soubessem os benefícios do sono, certamente se cuidariam mais, porque o sono perdido jamais é recuperado. E causa danos, às vezes irreversíveis.

Os benefícios do sono são os seguintes:

1. Favorece a liberação de vários hormônios, entre os quais:

a) melatonina, hormônio indutor do sono produzido no cérebro principalmente à noite. O cérebro, longe de ficar “desligado”, funciona a pleno vapor, mas de forma diferente, com ondas elétricas mais lentas.

b) leptina, hormônio capaz de controlar a sensação de saciedade – portanto, pessoas que tem dificuldades para dormir produzem menores quantidades desta substância.

c) grelina, uma substância que está relacionada a fome e a redução do gasto de energia.

d) GH, responsável pelo nosso crescimento.

2. Ajuda a regeneração das células. Ao descansar, o nosso corpo se revigora e o metabolismo se equilibra. Dormir é muito mais do que repousar. Por isso, uma vez por dia, os vertebrados e até as moscas passam por um período de várias horas com o cérebro funcionando diferente, e não apenas em “repouso“: é sono mesmo, como afirma a biomédica Deborah Suchecki, do Instituto do Sono, um dos maiores centros de estudos do tema no mundo, pertencente à Universidade Federal de São Paulo.

3. Diminui problemas de saúde. Reduz 48% as chances de problemas cardíacos e controla a hipertensão. Diminui em 60% as chances de câncer de mama.

Quem deixa de pregar os olhos para ver aquele filme imperdível noite adentro pode mexer com uma das estruturas mais importantes do corpo: o DNA. “Essa privação aparentemente deixa a molécula mais frágil e suscetível a mutações”, explica a geneticista Camila Guindalini, do Instituto do Sono. E esse é o primeiro passo para o aparecimento de variados problemas, entre eles o câncer. O que mais surpreende os cientistas, entretanto, é que ficar poucas horas na cama altera nossa carga genética. “Restringimos o sono de animais só por quatro dias e percebemos que alguns de seus genes estavam mais ativos”, revela Camila. Os cientistas acreditam que essa seria a conexão entre dormir pouco e o desequilíbrio de várias funções corporais.

Pesquisa da Warwick Medical School, nos Estados Unidos, mostra que a privação prolongada do sono ou acordar várias vezes durante a noite pode estar relacionado a acidentes vasculares cerebrais, ataques cardíacos e doenças cardiovasculares. Os autores do estudo conduziram uma investigação que acompanhou durante 25 anos mais de 470 mil pessoas em oito países, incluindo Japão, Estados Unidos, Suécia e Reino Unido.

4. Auxilia a perda de peso. O sono acelera o metabolismo, ao produzir os hormônios citados acima. Segundo um estudo feito na Universidade de Chicago, pessoas que dormem de seis a oito horas por dia queimam mais gorduras do que aquelas que dormem pouco ou tem o sono fragmentado. De acordo com o estudo, dormir pouco reduz em 55% a perda de gordura.

5. Prolonga o tempo de vida. Dormir não é desperdício de tempo, porque quem dorme mais vive mais. Médicos da Universidade de Nagoya, Japão estudaram por 12 anos um grupo de 5 000 habitantes da cidade de Gifu. Na pesquisa, foram analisados apenas os hábitos de sono do grupo. Conclusão: pessoas que dormem menos de sete horas diárias têm o risco de morte quase duas vezes maior do que aquelas que dormem entre sete e dez horas.

6. Dormir serve para o organismo refazer os estoques de proteínas e enzimas gastos durante o dia. Para vários cientistas, esta é conclusão de vários estudos.

7. Ajuda o cérebro a eliminar toxinas. Esta pesquisa é recente e foi publicado no Brasil em outubro de 2013. Quando dormimos, células nervosas diminuem, abrindo espaço para fluidos fazerem, literalmente, uma lavagem cerebral.

A descoberta foi feita no laboratório de cientistas da Universidade de Rochester, nos EUA, que usaram uma técnica sofisticada de microscopia a laser para observar tecidos de animais vivos.

8. Fortalece a memória. Pessoas que dormem bem absorvem melhor as informações do dia a dia do que aquelas que passam longos períodos sem dormir, revela estudo feito pela Universidade de Lubeck, na Alemanha. De acordo com os pesquisadores, isso acontece porque durante o descanso ocorre a síntese de proteínas responsáveis pelas conexões neurais, aprimorando habilidades como memória e aprendizado.

9. Previne a depressão. Quem dorme de seis a nove horas por dia tem menores chances de ter depressão, o que pode comprometer a qualidade de vida de uma pessoa. É o que indica um estudo feito no Cleveland Clinic Sleep Disorders Center, em Ohio, nos Estados Unidos, que analisou mais de dez mil pessoas.

10. Melhora o desempenho físico. Ao dormir, o corpo humano produz o hormônio GH, responsável pelo nosso crescimento. Tal substância só começa a ser produzida aproximadamente meia hora depois de a pessoa dormir. Quem tem o sono fragmentado sofre dificuldades de sintetizar esse hormônio. “O hormônio do crescimento tem como funções ajudar a manter o tônus muscular, evitar o acúmulo de gordura, melhorar o desempenho físico e combater a osteoporose”, explica a endocrinologista Alessandra Rasovski, da Sociedade Brasileira e Endocrinologia e Metabologia. 

11. Controla a glicose e, por consequência, o diabetes. É o que afirma um estudo feito pela Northwestern University, dos Estados Unidos. Depois de acompanhar, por seis noites, o sono de pessoas com diabetes, os cientistas concluíram que os participantes com o sono de má qualidade tiveram aumento de 23% nos níveis de glicose no sangue e 48% nos níveis de insulina. Usando esses números para estimar a resistência insulínica do indivíduo, os pesquisadores concluíram que portadores de diabetes que dormem mal tinham 82% mais resistência insulínica que os portadores com sono de qualidade.

Sites consultados:

  1. (http://saude.abril.com.br/edicoes/0331/medicina/9-razoes-nao-se-privar-dormir-612000.shtml?pag=1)
  2. http://tudo.extra.com.br/infograficos/beneficios-do-sono/
  3. http://www.minhavida.com.br/bem-estar/galerias/14895-oito-beneficios-que-o-sono-traz-para-a-sua-saude
  4. http://abiliodiniz.uol.com.br/qualidade-de-vida/revelacao-inconsciente.htm
  5. http://super.abril.com.br/ciencia/sono-fonte-juventude-441938.shtml
  6. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq2101201005.htm
  7. http://www2.uol.com.br/vivermente/noticias/reparos_secretos_durante_o_sono.html
  8. http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2013/10/1358387-sono-ajuda-o-cerebro-a-eliminar-toxinas.shtml
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