(…) Muitas igrejas e centros de retiros têm labirintos permanentes em suas propriedades que são abertos ao público. Andar no labirinto ajuda você a conectar os hemisférios direito e esquerdo do cérebro, o que estimula o pensamento criativo e a solução de problemas. Enquanto percorre o caminho sinuoso do labirinto, você pode ganhar mais insight acerca de sua vida ou de um problema que está tentando resolver ”. Trecho do livro “A bíblia da meditação”, de Madonna Gauding. Editora Pensamento, página 202.

 

Na meditação “labirinto” a pessoa reflete sobre a causa do problema e caminha para a solução. A sensação de estar perdido, e sem saída, para alguma situação aflitiva, exige que o ser humano tenha consciência do problema e saiba identificar quais são as possíveis soluções.

Quem está no labirinto não está perdido, pois sabe que existe uma saída. É um exercício de procurar o caminho certo e de memorizar os caminhos percorridos, para não passar duas vezes no mesmo lugar, ou seja, evitar cometer erros. Enfim, é exercício intelectual.

Ao caminhar pelo labirinto, começamos a explorar nossas potencialidades mentais racionais. Assim acontece também com as nossas emoções. Por isso, há interação entre nossa parte emocional com os nossos instintos racionais que têm por objetivo preservar a vida.

A partir da descoberta dos reais problemas, o próprio cérebro vai montando as opções de desfecho favoráveis à pessoa. É preciso, portanto, descobrir a causa de tudo para que a criatividade aflore e aponte o caminho da superação.

Meu primeiro passo foi criar um cenário de dificuldade concreto, porque eu não sentia dores nem nenhuma dificuldade física.

Não havia enjoos, mal-estar, nada disso. Tudo parecia tão normal que espantava a notícia do tumor. Como meu cérebro poderia reagir se não havia um inimigo claro a afetar meu corpo?

A criação do monstro imaginário para simbolizar a doença ainda não estava totalmente consolidada na minha mente, apesar de trabalhar para vencê-lo.

Decidi que poderia agir em duas frentes: na concretude da imagem do monstro idealizado e na procura de novos caminhos no labirinto. Assim, faria exercício de criatividade e de combate ao mesmo tempo.

No íntimo eu acalentava a expectativa de ativar áreas cerebrais inativas. Dessa forma, as opções de cura aumentariam.

Iniciei a técnica do labirinto criando mentalmente a visão e a sensação de estar em uma floresta escura e impenetrável.

Imaginei que estava no centro da mata, envolto em sombras que não permitiam ver quase nada. Era o centro do labirinto. E aquele ambiente dava medo, porque era desconhecido para mim.

É possível que depois do sentimento de solidão e abandono, a escuridão seja o mais paralisador de todos os medos. A ausência de luz e a pouca luminosidade causam insegurança terrível.

Caminhar em lugares que não conhecemos é sempre perigoso e exige boas doses de enfrentamento pessoal, além de destreza para manter o passo.

Sem ter a noção completa do que fazia, continuei a procura pela saída do labirinto. Na prática, estava participando de um jogo de obstáculos, cujas dificuldades foram criadas por mim.

O exercício foi se tornando complexo e trouxe como consequência habilidades que nunca exercitei.

Entre as habilidades exercitadas está a do afastamento do quadro da doença. Por vezes, eu me esquecia de que tinha enfermidade grave.

Deixar de pensar no foco do problema real foi bom, porque trouxe relaxamento e sensação de bem-estar muitas vezes.

A mente ficava ocupada em descobrir saídas dentro do labirinto e, dessa maneira, mantinha a própria mente, o corpo e o espírito permanentemente interligados, pois o esforço era conjunto e complexo.

O câncer não permite fugas. Ou ele é enfrentado ou somos consumidos por ele. Minha opção, portanto, era única: a de enfrentar o labirinto que se abria ameaçador à minha frente.

Durante a caminhada, a insegurança aumentou. As emoções ficaram intensas, o medo do desconhecido e a falta de caminho a trilhar me levaram a chorar.

Desabafei escrevendo alguns textos. Senti a insegurança invadindo minha mente consciente. Era preciso reagir, mas como? Será que havia esperança para sair daquela situação na qual me inseri? Como seria a saída do labirinto? Essa foi a fase do sufoco.

Equilibrar os dois hemisférios do cérebro era desafiador. Um dos hemisférios cerebrais é mais lógico e racional; o outro, mais intuitivo e criativo. Naquela época, as emoções preponderaram mais em um hemisfério que no outro. Assim, o desequilíbrio entre eles me causou angústia por curto período.

As emoções insistiam na negatividade, como já tinha acontecido algumas vezes. A racionalidade estava em baixa. A meditação no labirinto traria o equilíbrio. Por isso, precisei de algum tempo para colocar em ordem as ideias, para que só assim desse os primeiros passos.

Precisei de esforço concentrado e meditei até mais que cinco vezes ao dia. Era o momento da organização, de juntar forças e armas para enfrentar o que viria pela frente.

Nem sempre temos resultado imediato nas meditações. É preciso ter fé em Deus para que a solução surja, pois o tempo de Deus não é o nosso tempo. Não é contado como um relógio.

É preciso paciência e tolerância com nossos defeitos. Foi com esse exercício de espera que os primeiros sinais se manifestaram.

A floresta do labirinto, na primeira etapa das várias meditações parecia muito escura, pois saí da luz para a escuridão. Depois, me acostumei com a baixa luminosidade e fui enxergando o que antes não via.

A adaptação àquele ambiente desconhecido e hostil, ainda que imaginário, tinha estreita relação com a doença, porque aos poucos comecei a achar a doença “mais familiar”, ou seja, menos apavorante.

 Foi necessário muito tempo para que eu me acostumasse com aquela atmosfera tenebrosa da floresta desconhecida. Em nenhum momento pensei em desistir. Quando via minha face pálida no espelho eu pensava: “vou me fortalecer e virar esse jogo”.

Depois de dias meditando no labirinto mental, trilhando diversos caminhos que não tinham saídas, percebi que aquela floresta imaginária já não era tão ameaçadora. Eu me acostumara com aquele ambiente. A doença já tinha sido assimilada pelo meu cérebro. A solução viria em breve.

Percebi com a meditação que não adiantava recusar ou me revoltar com a doença.

Meu cérebro racional dizia claramente que eu precisava assimilar a doença e aceitá-la como uma fase de minha vida. Vencer e obter a vitória definitiva eram pensamentos que sempre se repetiam quando eu meditava no labirinto.

A neurociência explica que a determinação das pessoas faz com que todos os seus atos sejam naturalmente encaminhados para que o desejo seja alcançado, ainda que de forma inconsciente. Não pode haver dúvida.

Se desejo vencer, preciso dizer: “serei vitorioso”. Nunca diga: “acho que vou vencer”. Se você disser “acho”, o seu cérebro vai entender que você não está seguro, que existe dúvida. Há muita insegurança ao usar o verbo “achar”.

As pessoas precisam de determinação, porque o cérebro, por meio da mente inconsciente, precisa de ordens concretas, decisivas e claras. Ele, o cérebro, não permite indeterminações.

É preciso decidir com firmeza o que queremos. Dessa forma, o cérebro trabalhará para que as boas coincidências ocorram. Portanto, sempre diga “vou vencer”.

Meu desejo era de cura, mesmo ainda sem saber como obter o sucesso. Sempre meditei no labirinto com palavras positivas.

Não vacilei, nunca pensei na possibilidade de derrota. Meu caminho seria trilhado com otimismo, ainda que houvesse situações inesperadas de fragilidade. Minha mente inconsciente estava sendo preparada para a vitória.

Nas corridas que fazia, o fluxo de meu sangue informava à minha mente que existia energia vital em abundância em meu corpo.

Aquela energia seria usada de maneira racional, como forma de encontrar a saída para vencer a doença.

Assim se deu a minha entrada no labirinto. Foi a época em que me adaptei: ao ambiente hostil da floresta escura imaginária; a fase do medo; da manifestação de fraqueza; da descoberta de minhas fragilidades; da aceitação da doença; da busca do equilíbrio emocional e do planejamento das estratégias.

Eu começara bem uma caminhada que se revelaria fascinante, tantos foram os ensinamentos que pude adquirir. 

A meditação no labirinto é composta de mais duas partes: “a permanência no labirinto” e “a saída do labirinto”.

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