Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você. Essa é a essência do Torá.” (…) O princípio moral parece ser simples e claro, seja na forma oferecida pelo delicado mestre da história, ou, como foi exposto alguns anos depois por Jesus, o seu contemporâneo mais jovem: “Ama o teu próximo como a ti mesmo”. Até aqui tudo é óbvio, não é mesmo? Trechos do livro Por que não conseguimos ser bons?, de Jacob Needleman, Editora Cultrix, página 16.

Os princípios acima só comportam pouquíssimas exceções. Pessoas com câncer devem se afastar desses princípios, apenas durante o tratamento.

As regras para os doentes deveriam ser: “Faça a si mesmo o que gostaria que os outros fizessem a você” e “Ame a si mesmo como deve amar ao seu próximo”.

Em momentos de doença grave, o doente deve pensar mais em si mesmo do que nas pessoas ao redor. Essa, talvez, seja a única exceção justificável aos princípios acima. A razão desse comportamento provisório: é preciso concentrar as energias e a determinação para superar a doença.

Ao descobrir a doença, os doentes entram no labirinto, seja voluntariamente ou forçados a essa decisão. A decisão de se preocuparem apenas com eles mesmos não é ato egoísta. Serve para direcionar as forças para a cura.

A entrada num labirinto fictício é uma técnica de meditação que consiste em dar os seguintes passos:

1. Aceitar que existe um problema a ser resolvido, ou seja, ficar livre da doença;

2. encarar a doença sem os tabus que a sociedade impõe e acreditar com fé que existe solução;

3. entender que terá que percorrer caminhos que, em alguns casos, levam a situações sem saída, mas que sempre poderão ser descobertos outros caminhos que levarão à solução do problema;

4. durante a procura da saída será possível conhecer e viver experiências novas, as quais deverão ser aproveitadas para o crescimento espiritual;

5. o labirinto é desafio a ser vencido e caminho a ser percorrido solitariamente, pois só doente saberá dizer o que acontece durante o percurso;

6. esquecer a negatividade, pensar positivamente, e usar o exemplo de milhões de pessoas que venceram doenças e outros problemas graves ajudam a encontrar a saída para a cura;

7. nunca desanimar diante de possíveis fragilidades do corpo durante a busca pela saída.

Assumir o labirinto é aceitar as regras de um jogo pessoal que sempre tem solução. É importante pensar assim, porque o cérebro vai se acostumando com o ambiente de determinação do doente. Isso faz com que as soluções surjam espontaneamente.

Minha permanência no labirinto foi magnífica. Jamais pude imaginar que os caminhos que iria trilhar poderiam acrescentar tanto autoconhecimento à minha existência.

Nas primeiras tentativas deparei-me com muitos caminhos sem saída. Assim aconteceu com as primeiras estratégias de vencer a agressividade da quimioterapia. Quase nada do que meditava dava certo. Senti fadiga, as lágrimas afloravam e o desespero por encontrar o caminho por vezes parecia insuperável.

Decidir é o primeiro corredor no qual somos testados. Pessoas que entrarem espontaneamente no labirinto chegarão à conclusão de que precisam gostar muito de si mesmas.

Seria algo assim: “estou no labirinto disposto a ser vitorioso. Tenho muito amor próprio, usarei todas as minhas forças. Não me importarei com eventuais derrotas na busca pela solução. Minha determinação e fé são inabaláveis”.

Para amar a si mesmo é preciso exercitar o autoperdão. No turbilhão de pensamentos, que insiste em ser negativo, o ser humano caminha na insegurança. É importante, pois, vencer essa primeira barreira do labirinto. Precisamos nos perdoar pelos erros cometidos.

É necessário aceitar que errar faz parte da existência humana, e entender que muitas vezes erramos sem querer errar. Erramos por tentar acertar.

Minha caminhada no labirinto exigiu a minha própria aceitação.

Só na meditação do labirinto pude perceber que tive alguns momentos de comportamento autodestrutivo, que se manifestava na falta de disciplina para meditar com eficácia, pois eu sentia muito medo do futuro.

Normalmente as pessoas carregam culpa. E uma das formas de compensar a culpa se manifesta nos comportamentos autodestrutivos inconscientes; por exemplo, como resistência aos medicamentos, falta de disciplina para combater a doença. Isso é normal, porque à brutalidade da doença soma-se a brutalidade do tratamento.

O doente com câncer fica muito enfraquecido e costuma até ter pena de si mesmo, na condição de vítima. Isso é um erro, porque esse dó interior nos faz perder energia e nos tirar do foco da meditação.

 

Como meditar no labirinto

 

Para meditar no labirinto é preciso um ambiente de paz. Pode ser um quarto silencioso ou qualquer outro local em que a pessoa se sinta bem.

O início da meditação sempre é feito com o relaxamento da musculatura. A pessoa deve estar confortável, sentada ou deitada, e deixar os pensamentos fluírem espontaneamente.

É preciso dar o seguinte comando cerebral: “consigo meditar com tranquilidade”, pois existem mais de seis mil métodos de meditação e qualquer pessoa pode meditar. Basta perseverar.

Todos os métodos de meditação iniciam com a respiração lenta, ritmada e com o relaxamento corporal. Nunca diga: “não consigo meditar”, porque o cérebro vai entender que você tem uma limitação e não permitirá a meditação.

Se houver dificuldade para pensar no problema a ser enfrentado, em procurar a saída do labirinto, é recomendável rezar ou entoar mantras. Dessa maneira, o espírito vai se aquietando e abrindo espaço para o ambiente de meditação, que é relaxante e nos conduz ao nosso centro de equilíbrio.

As soluções que surgem para os problemas aparecem como lampejos, relâmpagos que nos trazem o bem-estar.

Minha permanência no labirinto, com resultados positivos, só se concretizou após o período de mais ou menos sessenta dias. E foi decisiva para que eu acreditasse que estava no caminho certo e que, ao persistir, traria o resultado que eu esperava.

Depois disso dei os primeiros passos de acerto. Os corredores imaginários do meu labirinto iam sendo vencidos, um a um. Na ilusão mental que criei havia progresso e cada vez mais luz. Da penumbra escura inicial, minha mente quase não se lembrava. Meu caminho estava iluminado.

Nem mesmo a pouca redução do tumor, revelada pela tomografia após o sexto ciclo de quimioterapia conseguiu abalar a minha determinação. Encarei como mais um caminho a ser descoberto no labirinto. E assim, trilhando o labirinto, com todos os desacertos, pude assistir a minha própria renovação espiritual.

A saída do labirinto foi mais fácil a partir da aceitação da permanência nesse jogo de busca da cura. Quem está no labirinto não está perdido. Está desafiando a inteligência a encontrar soluções definitivas.

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