Penso no que faço, com fé. Faço o que devo fazer, com amor. Eu me esforço para ser cada dia melhor, pois bondade também se aprende.

Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir.” Cora Coralina

Aquela manhã era especial. Até o dia colaborava com a sua beleza, porque o céu estava lindo, de um tom azul que transmitia calma. Era 10 de março de 2009, e eu ia ser operado para a retirada de material para a biópsia.

Tudo o que eu sabia naquele momento é que possuía um tumor do tamanho de um ovo de galinha no mediastino, aquele espaço entre os dois pulmões. 

Os médicos relataram que o caso era grave. Por isso, fui mantido internado nos últimos três dias, de repouso. Meu pulso minutos antes da operação variava entre 46 e 49 batimentos cardíacos, a pressão sanguínea era de 11 por 7, e a oxigenação de 98%. 

– Você está muito calmo. Isso é muito bom, disse o médico. 

Só então me dei conta da gravidade daquilo que vivia. No dia anterior, me preparei muito para aquele momento. Meditei bastante, fiz orações com fé e procurei relaxar. Não havia nada mais que fazer. Dormi bem a noite toda. Daí, a calma revelada antes da operação. 

Percebi que eu estava em paz comigo. Nada do que viesse acontecer poderia me abalar e desesperar. Minha preparação havia sido excelente. E se eu morresse? Essa foi a pergunta que veio de repente. E se tivesse doença incurável? Como seria meu fim? 

Por mais que eu quisesse me esquivar, estava diante do desconhecido, confrontando com aquela situação pela qual todos nós um dia passaremos. Será a despedida? Não. Eu não iria me abalar, por pior que fossem as notícias. 

O pensamento não queria acomodar. Pensei no passado. Era inevitável. Se algo desse errado, eu iria partir em paz. Não tinha remorsos ou situações não resolvidas na vida. Seria uma passagem tranquila. Durante toda a minha existência tenho vivido como se cada dia fosse o último. Li isso em algum lugar e nunca mais deixei de ter essa filosofia de vida. 

É da nossa cultura ter mitos. Ouvi de várias pessoas próximas que meu câncer era consequência do rancor. Junto com esse pensamento, dizem também que pessoas depressivas, estressadas ou mal resolvidas estão mais sujeitas a esse tipo de doença. É uma covardia. O doente já está frágil e ainda é vítima de mitos sem fundamentos. 

Não existem provas científicas de que os ressentimentos, os rancores, o ódio, a depressão e vários outros comportamentos ligados às emoções venham a causar câncer. Mas o assunto é polêmico e divide as opiniões entre médicos e especialistas. O que acontece é que pessoas com esse perfil ficam com o sistema imunológico enfraquecido. E se elas possuírem tendência ao câncer, ele pode se manifestar.

Confirmado o diagnóstico do câncer, o doente tem mais o que fazer que se preocupar com o passado. Há mais a fazer do que investigar as causas da doença. As energias devem ser concentradas na cura. Tentar descobrir o que foi feito de errado e o que causou a doença em nada irá contribuir para a cura. Isso só roubará energias que devem ser usadas no tratamento. 

O doente com câncer costuma ter dramas de consciência, muitas vezes agravados por parentes e amigos. É comum ouvir coisas assim: se em tal situação você tivesse agido de maneira diferente provavelmente não estaria doente. Ainda que isso não seja dito de forma expressa, é dito por meio de gestos e de forma subentendida. É o infeliz costume de nosso povo de dar palpites sem conhecimento de causa. 

A escritora Cora Coralina nos dá a lição que introduz este texto. Temos que decidir. Doentes precisam decidir combater a doença. Se existem pendências passadas, durante a doença não é o momento de resolver. É preciso decidir pela vitória sobre a doença. 

É necessário decidir ter projeto presente, de bem-estar e recuperação; projeto futuro para realizar os sonhos que sempre temos. Nada mais importa. Deixe-se levar pela esperança. Dê uma chance a si mesmo. Lembre-se dos milhões de casos de superação e não se deixe abater. 

O passado sempre existirá, seja qual for. Porém, nosso passado é imutável. O que podemos fazer é amenizar o que achamos que fizemos de errado, sem drama de consciência ou sofrimento. Se há situações que devem ser perdoadas, perdoe de coração. Se achar que não deve perdoar, não perdoe. 

O importante é que a nossa integridade não seja esmagada pelo pensamento que vigora na sociedade. Cada ser humano tem a liberdade de escolher livremente o que quer para si, independentemente do que pensam as pessoas. Agindo assim, cada pessoa tem nas mãos o seu destino. 

É preciso acreditar no futuro. E para que o futuro exista, decida ser melhor no combate às doenças. O passado deve ficar em segundo plano nesses momentos de dificuldade, para não estragar nossos planos presentes de superação.

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