Perdoar quem nos agride, maltrata, ofende e fere tem sido quase uma imposição da sociedade. Existem até pressões sociais para perdoar. Às vezes chega a ser ameaça: “Se você não perdoar, poderá ter câncer ou outra doença grave” ou “Você precisa evoluir espiritualmente. Por isso, tem que perdoar”.

Infelizmente, a palavra perdão foi banalizada. Ficou chique na sociedade dizer para alguém passar a borracha no sofrimento que recebeu.

Quem pede aos outros que perdoe, coloca-se num patamar mais elevado do que aqueles que sofreram algum constrangimento ou injúria, e estão sofrendo. Afinal, pregar o perdão é agir conforme os preceitos religiosos. É ato sublime e superior. Assim, é facílimo querer direcionar os comportamentos alheios.

É muito simples aconselhar ou ameaçar o outro a perdoar. Difícil é se colocar na posição do ofendido e sentir as dores dele.

A maldade que os agressores cometem quase sempre se torna ferida que sangra, seja na alma ou no corpo da vítima. E aí vem um amigo, parente, até desconhecidos e dizem com a autoridade moral que pensam ter (e quase sempre não têm): “Perdoe e se sentirá melhor”. Não deveria ser assim.

Antes de aconselhar a perdoar, seria bom perguntar e ouvir como o ofendido se sente. Conhecer os motivos e entender o que se passa na cabeça de quem sofreu ou ainda sofre. Exercitar a compreensão é melhor do que se fazer de “bonzinho” ao aconselhar o perdão.

Quem perdoa apenas concede algo. Na maioria das vezes concede a própria dignidade na esperança de aliviar o sofrimento. E se não aliviar as dores? E se o ofensor voltar a agredir, como fica a situação de quem perdoou?

Não deveríamos criar relações com base em concessões. Há de haver equilíbrio e respeito entre as pessoas. O direito de cada um escolher o que deseja é sagrado.

É óbvio que, em princípio, perdoar é o melhor caminho, mas não deve ser a regra. Perdoar só para agradar, seja a quem aconselha ou ao agressor, é fingimento.

Existem pessoas que não conseguem perdoar. E não devem ser recriminadas, discriminadas ou evitadas por essa decisão.

Estão errados aqueles que colocam os rótulos de “raivosos”, “espiritualmente inferiores”, “gente vingativa” em quem não é capaz de perdoar, pois não são seres humanos inferiores. São apenas humanos, com todas as suas qualidades e defeitos, como os que pregam o perdão, ou seja, iguais.

Perdoar é algo muitíssimo pessoal. A opção de ouvir conselhos é de cada um. O que não deve ser feito pelo ofendido é alimentar o ódio. O afastamento de pessoas que nos fazem sentir mal é uma das opções para aliviar o sofrimento. Sair daquele ambiente que causa dor é uma solução entre tantas outras.

O autoperdão é o reconhecimento de uma fraqueza pessoal e pode ser tão dolorido quando perdoar a outrem. Mas há situações em que é infinitamente melhor reconhecer que somos frágeis – e exercer o autoperdão – do que fazer aquilo que o nosso coração não dá conta de praticar, só para agradar um pseudo bem intencionado amigo ou parente.

Não podemos permitir que a nossa vida seja direcionada por modismos sociais que supostamente querem trazer a paz aos que sofrem. Do lado oposto, isto é, das pessoas que se acostumaram a fazer maldades, ficará cada vez mais fácil machucar os outros, pois com o perdão recebido, tudo voltará ao normal. E o ciclo de ofensas será interminável, assim como acontece há milênios.

A integridade humana deve ser inviolável. Portanto, não é recomendável nos entregar ou fraquejar diante de pressões que beiram à chantagem. Perder a autoestima, sim, pode causar doenças graves, entre elas, o câncer.

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