Não sou médico, nem profissional da área de saúde. Mas, quando tive linfoma, vivi a experiência de sentir a intensidade da força dos chamados “mitos que curam”, as chamadas curas fáceis e milagrosas. De um modo geral, são crenças em plantas e substâncias simples, que teriam poderes extraordinários no combate ao câncer.

Preocupado com os vários relatos de pessoas que sofreram com o uso de tais “recursos ditos milagrosos”, e também com os depoimentos de parentes que perderam entes queridos, publiquei neste blog o texto Muito cuidado com Avelós, babosa, bicarbonato, folha de mandioca, graviola e folhas…, que pode ser acessado no link: https://otemplodosguerreiros.wordpress.com/2015/01/08/muito-cuidado-com-avelos-babosa-bicarbonato-folha-de-mandioca-graviola-e-folhas/.

Surpreendentemente, nos últimos dias, um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) deferiu liminar concedendo o direito a um paciente de câncer de usar a substância fosfoetanolamina sintética (fosfoamina), pois essa substância seria eficaz no combate às células cancerosas, curando o paciente.

A situação se complicou por vários motivos:

1) a fosfoetanolamina foi estudada por cientista que atesta que a substância cura o câncer. Confira http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2015/08/pesquisador-acredita-que-substancia-desenvolvida-na-usp-cura-o-cancer.html.

2) Não existem testes clínicos que comprovem a eficácia da substância contra o câncer, ou seja, sem a comprovação científica fica impossível determinar se irá mesmo curar. Leia os esclarecimentos do Instituto de Química São Carlos (IQSC) da Universidade de São Paulo (USP) no link http://www5.iqsc.usp.br/esclarecimentos-a-sociedade/.

3) A fosfoetanolamina não é autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), porque o medicamento não foi testado em seres humanos com rigor científico. O que existe de concreto são depoimentos de pessoas que alegam terem sido curadas. Porém, como elas não foram acompanhadas por cientistas e especialistas de saúde, com o aval da Anvisa, o uso da substância não pode ser autorizado. Daí o motivo de os doentes terem ajuizado ações nos tribunais para ter acesso a fosfoetanolamina. Acesse: http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2015/09/pilula-da-usp-contra-cancer-nao-passou-por-testes-clinicos-entenda.html.

Acesse também http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2015/10/1694186-justica-libera-suposta-droga-contra-o-cancer-sem-testes-em-humanos.shtml

4) Sem a autorização da Anvisa, a fosfoetanolamina se equipara ao uso das ervas supostamente curativas e do bicarbonato. Assim, representa risco concreto aos pacientes. Não se sabe, por exemplo, qual a dosagem ideal para cada tipo de câncer, pois não existem estudos. Também é impossível prever se a fosfoetanolamina pode anular o tratamento convencional (quimioterapia e radioterapia), se for usada ao mesmo tempo.

5) Alguns alegam que a fosfoetanolamina é usada em pacientes terminais, por isso representa esperança de cura. Mesmo sem a substância, milhares de pacientes desenganados se curam, como cita o artigo “Vida depois do câncer” – relato do Dr. Claude-Alain Planchon (médico) – revista Seleções do Reader’s Digest do mês de junho/2012, páginas 106/107:

“(…) em 9 de abril de 1988 (…)” “No início de maio, minha dor recebeu um nome: câncer de baço (linfoma não Hodgkin de alto grau). O médico disse que eu tinha, no máximo, um ano de vida.” (…) “Dois anos se passaram… e eu ainda estava vivo. Casei-me com minha namorada, Juliet. Seu amor me ajudou a continuar a luta contra o câncer. Eu mal sabia que iríamos viver juntos por mais de duas décadas.” (…) “Quando converso com paciente de câncer, aconselho-os a aceitar o amor e a amizade e a satisfazer suas vontades e o que lhes interessa. Descobri minha vocação de escritor, poeta. Acabei de publicar meu quarto livro!

6) A decisão do STF abriu espaço para que mais de mil ações judiciais sejam decididas. Dessa maneira, muitas pessoas irão depositar suas esperanças em uma substância duvidosa e, talvez, negligenciar os tratamentos convencionais. Isso é erro grave que pode custar vidas. Há críticas no link:

http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2015/10/1694191-decisao-da-justica-abre-precedente-para-charlatanismo-na-medicina.shtml.

7) Para quem está doente, a espera de uma sentença judicial favorável pode causar ansiedade, apreensão, depressão e desgastes, enfraquecendo ainda mais o corpo debilitado pela doença. Não é prudente agir assim.

8) Mais críticas podem ser lidas em http://www.e-farsas.com/pesquisador-descobre-que-a-fosfoamina-cura-cancer-sera.html.

Entendo a aflição de quem precisa de ajuda. Por isso, reproduzo abaixo tópicos de meu livro O Templo dos Guerreiros, páginas 49 a 54, na esperança de ajudar os aflitos a tomarem a melhor decisão.

Este texto foi publicado no blog no dia 16/10/2015, sexta-feira, dois dias depois, no Fantástico, no dia 18/10/2015, o Dr. Dráuzio Varella aborda o mesmo tema, com argumentos semelhantes aos que escrevi. Acesse o vídeo no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=LPnVqs0_0Z0.

Tópicos do livro O Templo dos Guerreiros:

Doenças graves

Outra situação muito frequente é receber o diagnóstico de câncer. Pessoas desesperam ao saber que são portadoras dessa doença que cada vez mais causa vítimas no mundo inteiro.  É nesse ponto que a integração entre o corpo, mente e espírito se faz mais necessária.

O desespero ao saber do câncer é natural. Só mesmo pouquíssimas pessoas permanecem tranquilas ao saber da enfermidade, porque existe tabu social em relação à doença.

Os relatos de sofrimentos nas sessões de cirurgia, quimioterapia, radioterapia e ingestão de remédios podem ser muitos e assustadores. Isso tudo reforça nas pessoas duas convicções: a de que a cura será sofrida ou a de que o tratamento não dará resultado.

Noites de sono são perdidas por quem está com câncer. Pais, filhos, parentes e amigos próximos chegam a desesperar.

Muitos amaldiçoam a vida e ficam completamente desnorteados.

Essa fase, a da surpresa com o diagnóstico da doença maligna, é perfeitamente compreensível, mas não deve durar muito tempo. Para superá-la, o doente, precisa da ajuda das pessoas, que normalmente são solidárias e fazem muita diferença para suportar a enfermidade.

O primeiro passo é não negar a doença, porque ela já está registrada nos exames laboratoriais e clínicos. O máximo que se pode fazer é repetir consultas com outros especialistas e refazer os exames. No entanto, uma vez confirmados os resultados, não adianta tentar fugir da realidade.

Para aceitar a doença é preciso obstinação, porque não fácil reconhecer as próprias fraquezas, sejam físicas ou emocionais. Não significa aceitar no sentido de entregar os pontos.

Aceitar é reconhecer que o tratamento é imprescindível, seguir as recomendações médicas, não ter o receio de assumir que tem o problema e acreditar que a solução existe e será mais fácil do que dizem.

A grande dificuldade é conseguir coragem para olhar de frente o monstro que nos aflige, porque os vários casos que são comentados sobre a mesma situação induzem o doente a pensar que irá passar por sessões semelhantes à tortura e que talvez tais sessões não surtam efeitos.

Tentar a fuga, negando a doença só piora a situação, porque o cérebro deve estar otimista para enfrentar o que virá a seguir, ou seja, deverá ser preparado para ir ao encontro da solução, por mais dolorosa que seja.

Os pensamentos do doente estarão confusos nessa fase. Possivelmente, as pessoas ao lado dele, mesmo querendo ajudar, também estejam sem o rumo necessário, considerando que a situação é nova e o impacto ruim ainda não foi absorvido por todos.

Em suma, a situação é de caos, desespero e muitas vezes de completa desorganização mental de como enfrentar a doença. O quadro é desolador.

É benéfico aceitar a fragilidade e a impotência humanas. O choro é necessário para aliviar a dor física.

O desespero, por mais paradoxal que pareça, alivia a alma. É o momento em que o ser humano pode sentir a sua condição de vulnerabilidade. Ao desesperar, ele muitas vezes fortalece a necessidade de procurar soluções e passa a reagir positivamente.

São nas tormentas que os marinheiros descobrem as suas maiores qualidades de sobrevivência. Há relatos de que eles sentem medo, ficam sem saber o que fazer, são paralisados pela desproporção das forças da natureza e tomados pelo pânico.

Como as tempestades exigem reação imediata, os marinheiros passam diretamente para a ação, articulando corpo, mente e espírito quase instintivamente, pois não possuem tempo para refletir. São vitoriosos na maioria das situações.

Assim também acontece com as enfermidades graves. Se elas são diagnosticadas aos poucos, com a evolução da doença, o portador da doença tem mais tempo para refletir e fazer seus esquemas para superá-las.

Se as doenças forem detectadas de imediato, a situação é semelhante a dos marinheiros, com a diferença que a solução não será imediata. Afinal, no mar as tempestades duram horas ou dias e as doenças podem permanecer dias, anos ou a vida inteira para manifestar.

Diante da perspectiva de duração prolongada do tratamento, o doente terá mais tempo para trabalhar a sua condição psicológica. Poderá dar os primeiros passos para acessar o próprio templo dos guerreiros. Será ele o próprio condutor da cura.

No momento da notícia do câncer a mente do doente toma consciência de que o corpo não funciona bem e normalmente o desespero se instala.

É doloroso saber que existe um caminho longo a ser percorrido para vencer a doença. Antecipadamente, todos ficam sabendo que a estrada não é fácil de trilhar, e que oferece angústias, incertezas e desgastes de toda a natureza.

Pois é nesse momento de pânico que a natureza exige mais do ser humano. Aliás, exige esforço de super-humano. É preciso então, organizar os próximos passos mentalmente e procurar enfraquecer o desespero.

Uma das melhores maneiras de vencer essa etapa é a ajuda dos amigos e parentes. Pessoas sadias, próximas ao doente possuem melhores condições de aconselhar, acalmar e organizar as questões materiais e, talvez, dar o apoio psicológico necessário.

Terapias com psicólogos e especialistas do comportamento humano também ajudam e muitas vezes resolvem a parte de organização para enfrentar a doença, mas só isso não basta.

O doente tem que ter a consciência de que, por mais entes queridos que o ajudem, a luta para a cura é solitária. Ninguém sofrerá as dores dele.

É possível ter a noção do sofrimento psicológico de outrem, mas é impossível suportar as dores físicas de outro ser humano.

Cada um de nós tem história e trajetórias próprias. Portanto, é preciso saber como encontrar as soluções para os problemas pessoais.

Recupere a serenidade

O habitáculo do guerreiro doente, isto é, o seu corpo, está enfermo e temporariamente fora de combate por causa da moléstia.

A mente está abalada pela notícia devastadora, mas o espírito permanece intacto e protegido, porque Deus sempre nos dá a têmpera do aço para enfrentar as adversidades.

O grande problema é que não estamos acostumados a ter desafios tão gigantescos como a superação de um câncer. Nesses casos, a mensagem que o cérebro envia é que a dor está a caminho e ficará aquele ciclo vicioso a atormentar: “sentirá dor. Logo após, ficará muito enfraquecido e depois a dor irá consumi-lo”. Nunca permita que pensamentos como estes infiltrem na mente.

Os exemplos de pessoas que suportaram e venceram a dor são infinitos.

Qualquer um de nós é capaz de citar casos e casos de pessoas próximas que parecem feitas de aço, tão fortes foram diante da dor física.

Além do mais, o conceito de dor física é relativo. Alguns sentem mais dor, outros, menos dor.

Só a experiência é que pode determinar a intensidade do sofrimento físico.

As pessoas que se preparam para o choque têm muito mais chances de vitória. Portanto, o espírito de cada um pode e deve comandar a mente e o cérebro para enfrentar talvez a batalha mais importante de quem tenha câncer.

Ao aceitar a doença, ter esperança e agir com otimismo, em ações que são comandadas pelo espírito, a mente fica mais receptiva às mudanças da rotina física.

O organismo passa a absorver melhor as medicações e o corpo reagirá com maior disposição.

Nessa fase, a melhor maneira de conseguir o equilíbrio emocional é dar os primeiros passos no caminho da meditação, que acompanhará o guerreiro doente em todas as batalhas até a vitória. Os passos são relatados a seguir.

Anúncios