Reproduzo abaixo, integralmente, o interessante e belo texto da revista Seleções do Reader’s Digest, por tratar de tema de interesse geral, com a abordagem de aspectos científicos. Por isso, Recomendo a leitura para pessoas que passam por alguma dificuldade.

Destaquei em negrito os pontos que considero mais importantes.

Boa leitura!

O perdão é um bom remédio

Por Lia Graiger – Seleções do Reader’s Digest – janeiro de 2016 – páginas

63 a 67

Durante semanas, Karsten Mathiasen, 40 anos, foi dominado pela fúria. Meses antes, a mulher desse diretor de circo dinamarquês o abandonara para morar com outro homem. Cheio de ódio pelo novo companheiro da mulher, ele passava as noites acordado, com uma crescente dor de estômago e pensamentos raivosos rodopiando na cabeça. Começou a beber à noite para conseguir dormir.

Finalmente, foi a preocupação dos dois filhos pequenos que convenceu Karsten a conhecer esse homem de quem sentia tanta raiva.

Quando os dois se encontraram num café de Copenhague, Karsten percebeu que perdoaria o novo parceiro da mulher. Em vez de uma xícara de café, os dois tomaram várias e passaram  horas conversando.

Na volta para casa, Karsten se espantou ao perceber que a tristeza e raiva tinham sumido. Mais do que isso: ele se sentia fisicamente bem pela primeira vez em meses. Dormiu como um bebê naquela noite e acordou com a mente clara e o corpo relaxado.

“O perdão foi um grande presente que dei a mim mesmo”, diz Karsten.

Costumamos pensar no perdão como algo que fazemos pelo bem dos outros., mas novas pesquisas mostram que não é bem assim.

“Quem se dedica ao perdão passa por alterações de fisiologia”, diz o Dr. Robert Enright. Fundador do International Forgiveness Institute (Instituto International do Perdão) e autor dos livros O poder do perdão, The Forgiving Life (A Vida que perdoa) e 8 Keys to Forgiveness (8 segredos do perdão), ele pesquisa a força do perdão há três décadas. “O perdão ajuda o indivíduo a se livrar da chamada raiva tóxica”, diz ele. “O tipo de raiva que pode literalmente matar”.

Num estudo publicado em 2009 na revista Psychology and Healt, Enrighte sua equipe examinaram o efeito do perdão sobre a saúde de pacientes cardíacos. Eles verificaram que os participantes que perdoavam melhoravam de forma significativa o fluxo de sanguíneo no coração, mesmo após quatro meses do ato de perdoar.

Em termos fisiológicos, esses achados fazem sentido. Quando pensamentos de raiva e vingança invadem o cérebro, as duas metades do sistema nervoso autônomo se ativam ao mesmo tempo: tanto a simpática, que nos estimula, quanto a parassimpática, que nos acalma. Pense na primeira como o pedal do acelerador do carro e na segunda como o freio. O que acontece quando se pisa com força no freio ao acelerar? O carro vai seguir aos solavancos, e são essas as mensagens confusas e estressantes recebidas pelo corpo e pelo coração de quem vive ressentido.

E não é só o coração que pode se curar. Um estudo de 2011 apresentado à Sociedade de Medicina Comportamental, nos Estados Unidos, mostrou que o perdão ajuda a aliviar a insônia, e outro estudo realizado no Centro Médico da Universidade de Duke, na Carolina do Norte, também nos EUA, verificou que o perdão pode fortalecer o sistema imunológico de portadores do HIV. A cada ano que passa, novas pesquisas revelam que perdoar ajuda a curar muitas coisas, desde a insônia até, talvez, o câncer.

A vida de Rosalyn Boyce desandou em 1999 quando um homem invadiu sua casa em Londres e a estuprou enquanto sua filha de 2 anos dormia no quarto ao lado. Três semanas depois, o criminoso, um estuprador contumaz, foi preso e condenado a três penas de prisão perpétua.

Para Rosalyn, no entanto, o pesadelo não acabou. A lembrança do ataque enchia a sua cabeça o tempo todo, e ela foi forçada a se mudar da casa da família para fugir das recordações. Comer ficou impossível. Os médicos diagnosticaram depressão reativa e transtorno de estresse pós-traumático e lhe receitaram Prozac e tranqüilizantes. Ela começou a tomar uma garrafa de vinho por noite para esquecer.

Quando a saúde física e mental se deteriorou, Rosalyn percebeu que tinha de se curar. Com estudo e terapia, descobriu que o único caminho era perdoar o agressor. “Para mim, perdoar significava não sentir mais nenhum vínculo com o estuprador e me libertar do crime”, escreve ela. “Depois que escolhi entender o perdão nesses termos, um fardo imenso me foi tirado.”

Em julho de 2014, por meio de um programa de justiça restaurativa, Rosalyn finalmente conseguiu visitar o estuprador e então perdoou. “Depois, fiquei eufórica”, conta ela. “Não penso mais no estupro. Ele sumiu como fumaça.”

Pouca gente entende o perdão melhor que Marina Cantacuzino. Ex-jornalista, Marina é fundadora e diretora do Forgiveness Project (projeto Perdão), um site na Internet e uma série de exposições com histórias pessoais no mundo inteiro, inclusive a de Rosalyn, para explorar os limites e as possibilidades do perdão. “Perdoar não é concordar nem desculpar” explica a britânica, desfazendo o mito de que perdoar significa dizer que o acontecido foi aceitável. Outra concepção comum e errada é que o perdão exige reconciliação com o ofensor; não, não exige. É possível perdoar e não retomar o relacionamento. Na verdade, o perdão exige uma reconfiguração do passado para que se possa ver o incidente e o ofensor através de uma lente mais ampla, com mais compaixão.

Marina Cantacuzino também diz que oferecer perdão não significa abrir mão do direito de justiça. É possível perdoar alguém que terá de ir preso ou pagar pelo que fez. Na verdade, uma de suas definições favoritas de perdão veio de um presidiário: “Perdoar é abandonar toda esperança de um passado melhor.”

Depois de mudar da Inglaterra para o Líbano em 1966 e ver o país se dilacerar em 15 anos de guerra civil, Alexandra asseily, incrédula, se sentiu arrasada pela capacidade de violência da humanidade.

“Eu precisava perdoar as pessoas que destruíram o lugar lindo que era o Líbano”, diz a psicoterapeuta. Ela decidiu conversar com homens que tinham sido combatentes violentos no conflito. “Quando consegui vê-los como seres humanos e não como monstros, percebi que passara no meu próprio teste.”

Em 1984, ela ajudou a fundar o Centro de Estudos Libaneses da Universidade Oxford, na Inglaterra, onde se esforça para promover o perdão como ferramenta de paz e cura. Em seu trabalho, Alexandra diz que é comum encontrar pessoas que adoeceram. Ela descreve uma mulher de Roma que passou muitos anos ao lado do marido infiel e hoje está morrendo de câncer. “Ela é amarga, e acho que se corroeu por dentro”, diz Alexandra, que admite que a relação entre raiva e câncer ainda não foi cientificamente demonstrada.

Mas talvez não seja assim por muito tempo. Robert Enright se uniu ao oncologista eslovaco Pavel Kotou’ek num estudo para determinar se o perdão pode ajudar na batalha contra o câncer. Kotou’ek diz que tratou muitos casos na Eslováquia e na Inglaterra em que a amargura do paciente parecia paralisar o sistema imunológico. “Há fortes indícios de que, se melhorarmos o perfil imunológico do paciente de câncer, conseguiremos controlar a doença.”

O estudo será realizado em toda a Europa pela entidade Myeloma Patients Europe, que oferecerá aos pacientes a terapia do perdão além de tratamentos convencionais, como quimioterapia, radioterapia e transplantes de medula óssea e células-tronco.

Para Azaria Botta, 33 anos, uma auxiliar de ensino de Vancouver, no Canadá, o rompimento com uma das melhores amigas abriu os olhos para o poder curativo do perdão. No verão de 2004, com uma de suas amigas mais antigas, Azaria partiu numa viagem pela Europa de mochila às costas. As duas moças, empolgadas, deram início à viagem e percorreram o Reino Unido antes de chegar a Paris. Foi lá que a amiga de Azaria anunciou que faria um passeio romântico de uma semana com um jovem mochileiro colombiano.

Azaria ficou chocada e furiosa. Passou a semana sozinha em Paris, cheia de raiva e desapontamento. Também sofreu estranhas dores de cabeça e de barriga. Azaria continuou a ferver de raiva depois que a amiga voltou a Paris e lhe pediu muitas desculpas.

No retorno a Vancouver, a raiva de Azaria não a abandonou – nem as dores de cabeça e de barriga. Só quando a amiga implorou desculpas e as duas se reconciliaram aos prantos, a cabeça de Azaria parou de doer e seu apetite voltou. Foi então que ela ligou os pontos: a raiva a deixara doente. “Eu me senti mais leve”, diz Azaria. “Desistir daquela raiva foi o primeiro passo.”

Os especialistas são inflexíveis: não existe um caminho específico para o perdão. “É diferente para cada um”, alerta Marina Cantacuzino.

Com o passar dos anos, alguns se sentem desgastados pelo ódio e pelo medo e decidem mudar. Outros, segundo ela, conhecem alguém parecido com o ofensor ou assistem a um programa de televisão que os leva a pensar na situação de um jeito diferente.

Robert Enright concorda que o perdão pode assumir muitas formas, mas, no aspecto mais básico, perdoar é oferecer bondade a quem nos feriu.

“O perdão pode assumir a forma de respeito, de retornar um telefonema ou dizer a outra pessoa uma palavra gentil sobre o ofensor”, explica ele. “O paradoxo é que, quando temos misericórdia de quem não a teve conosco, nos curamos emocional e, às vezes, também fisicamente.”

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