As olimpíadas no Brasil revelaram com muita intensidade o quanto o passado dos atletas foi decisivo para os vitoriosos. Não só para aqueles que ganharam medalhas, mas também para quem se confrontou com o que já viveu e pôde superar marcas pessoais.

Todas as experiências que temos ficam registradas definitivamente no nosso cérebro. A partir daí tudo o que pensamos e fazemos é automaticamente relacionado com o passado, seja ele de sofrimento ou de alegria.

Os exemplos dos atletas ilustram bem. Muitos deles tiveram infância miserável, com pouquíssimos ou nenhum recurso financeiro. E foi exatamente o passado de sofrimentos que fez deles os vencedores dos jogos olímpicos disputados.

Em particular, uma das atletas do judô, oriunda de favela, já tinha sido derrotada e humilhada na olimpíada anterior. Pagou caro pela derrota, porque foi discriminada maneira cruel e brutal por ser negra. No Rio de Janeiro, ao disputar a medalha de ouro, lutou como se fosse um animal acuado, que não tinha opção a não ser vencer. E venceu gloriosamente, como a poucos é dada a vitória. Não fossem as inúmeras feridas do passado, o resultado poderia ser outro.

Basicamente, o comportamento dos seres humanos é forjado na infância e adolescência e pode ser enquadrado, didaticamente, como originário de três tipos de experiências: a) a de vida difícil e sofrida, com rejeição familiar ou social; b) vivências protegidas, com bons recursos materiais e proteção excessiva, caso das pessoas mimadas e superprotegidas; c) estilo de vida neutro, com recursos necessários e bom equilíbrio emocional, mas que conduzem ao comodismo.

A partir do que viveram os atletas hoje vencedores, eles poderiam escolher; ou ficar presos ao passado de miséria e se declararem vítimas num eterno lamentar; ou partir para o enfrentamento, como fizeram e arriscar tudo com bravura, mesmo sujeitando-se à derrota.

Aqueles vencedores escolheram a vida árdua de sacrifícios em nome da própria superação, e obtiveram a vitória. Entretanto, o passado de cada um deles está gravado nos seus cérebros, armazenado na memória que os levará a agir no presente e no futuro. Assim também acontece com cada um de nós.

Nunca perdemos o vínculo com o passado que vivemos. Os atletas olímpicos demonstram claramente que foi o sofrimento na pobreza que impulsionou os seus atos até a vitória. Até aí, existe uma lógica: a de que a situação desfavorável leva o ser humano a reagir para se sentir valorizado. O problema é que essas pessoas ficarão presas e escravizadas até o fim dos dias por causa das dores que sentiram, principalmente na infância e na adolescência.

Só acontecerá a libertação completa desses atletas quando olharem para o passado com distanciamento; compreenderem que foram inteligentes ao enfrentarem e vencerem os obstáculos; e também quando se acostumarem com naturalidade à realidade de vencedores. Ainda assim, o presente se tornará passado e, invariavelmente, irá marcar o cérebro deles na tomada de decisões futuras.

No outro extremo, existem pessoas pobres e igualmente sofridas, que viveram as mesmas dificuldades dos esportistas. Porém, diferentemente, a grande maioria opta por ser considerada vítima da pobreza. A justificativa para não agirem é sempre a miséria e a falta de oportunidades. Esquecem-se de que os caminhos são construídos com dedicação, que as portas se abrem para aqueles que se sacrificam, ainda que a custo de fome e exploração. A revolta desses seres humanos, não raro, leva muitos a praticar crimes. Assim, são banidos da vida social por meio de prisão.

E aqueles que são criados com todos os confortos, mimos, e, principalmente, nunca têm contrariados os seus interesses, quando são postos diante dos desafios, quase não se dedicam a vencê-los, porque pais e parentes fazem o que não deveriam, ao ampará-los sempre. Crescem assim: imaturos, egoístas, insensíveis e dados a explosões de ira, porque não foram preparados para lidar com as frustrações.

Pobres das criaturas mimadas, porque o passado delas imporá derrotas na sociedade quando não puderem contar mais com o pai ou a mãe.

Os humanos que têm vida confortável, sem carências ou benesses, na infância e adolescência, isto é, estão no meio termo entre a miséria e a fartura, também costumam não se destacar, porque vivem na constante falta de ânimo para qualquer ação. Dessa forma, contentam-se com pouco e levam vida indolente.

É nesse ponto que todos devemos refletir o quanto sofremos influência do nosso passado e procurar entender o impacto dessa influência no comportamento presente. Meditações simples, com o olhar sem crítica para o que vivemos, estabelecendo a relação entre passado e presente, pode ser boa solução para evitarmos sofrimentos.

Impressiona a quantidade de pessoas doentes que sempre estabelecem o vínculo com o passado. Alguns se perguntam: “Onde errei para sofrer tanto hoje?” “Será que fiz algo para merecer esta desgraça que me causa dores?”

As indagações somente serão valiosas se houver propostas de desapego do passado. Caso contrário, remoer o que foi vivido só poderá aumentar a agonia presente. Portanto, o passado, por ser imutável, nos dá as possibilidades de revolucionar o presente e o futuro, ou nos deixar estáticos, sem a ação para romper com os laços pretéritos vividos.

Friedrich Nietzsche dizia que o ser humano é um animal capaz de ser racional, mas muito raramente age com racionalidade. Confrontar o nosso passado com o presente, com propostas otimistas de vencer os vínculos que nos escravizam a ele, é um exercício de inteligência, porque fatalmente nos levará a ter controle sobre as emoções negativas. É nessa situação que Nietzsche dá a medida de parte da racionalidade: a de evoluir sem as amarras do passado angustiante; ou, no polo oposto, evoluir com as alegrias vividas em outros tempos.

A ponte segura para o presente e o futuro feliz passa, necessariamente, pelos enfrentamentos pessoais e decisões certas, ponderadas. Somos animais com possibilidade de ser racionais, como dizia o filósofo. Então, não devemos renunciar a esse privilégio. Usemos o cérebro a nosso favor, como os atletas olímpicos, a transformar o nosso passado em felicidade.

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